Professora Eva Cunegundes
Uma brisa leve atiça as folhas do coqueiro e chega ao quarto pela porta que dá à varandinha. Meio sonolenta, tento proteger-me do frio (intruso neste tempo de calor), mas a mão que procura o cobertor recusa-se a completar o comando.
Por que incomodar-me com o frio quando os gritos aflitos das crianças estão longe de ser, suficientemente, uma linguagem que expressa a dimensão da dor das queimaduras? Quando o pranto desesperado dos pais é incapaz de traduzir o sofrimento que lhes queima a alma? Quando chamas ceifam vidas e aniquilam a pele merecedora da proteção de braços amorosos?
Ilustação: Life On a Draw

Sinto a mão ainda estendida, agora em busca de um amparo de dimensões muito mais extensas, incomparável ao que me cobriria o corpo. O que me acorre, entretanto, é o alarido que, ao ultrapassar os muros e os arredores da creche, propagar-se com os zunidos das sirenes, ganhar o mundo por meio das redes sociais, expõe-me as feridas de uma humanidade carente de aprender a "calçar os sapatos do outro".
Mas me nego a render-me ao desamparo. Ouço a voz de Vinicius: "Pensem nas crianças/Mudas telepáticas", "Pensem nas feridas/Como rosas cálidas". E penso nas lágrimas derramadas a estas horas em tantos lares, nos leitos dos hospitais sacudidos por gemidos inocentes.
Volto à creche "Gente Inocente" e vejo as mochilinhas, certamente ainda largadas ao chão, prenhes de futuro. A dor é intensa, mas me traz uma esperança. Releio as mensagens vistas nos grupos do Whatsapp: "Galera, uma amiga de Janaúba tá indo pra lá agr levando doações aqui de moc, quem se sentir à vontade para doar...", "Alguém tem sangue AB negativo ou conhece alguém?".
Penso nas sementes que morrem para trazer a vida novamente, e sinto que o sacrifício (inaceitável e incompreensível) dessas crianças dará vida a ações de muitos para a construção de uma humanidade sadia. Espero que nosso papel não seja apenas o de pensar os vergões abertos pelo mal, mas o de nunca deixar o outro vulnerável a esses vergões.